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September 25th, 2011
Kosmos Universalis
Deito-me calmamente ao divã, ainda que querendo esganar o doutor. Cruzo os braços apertadamente com a firme intenção de segurá-los.
- Não sei porque vim de novo. Está muito claro para mim agora.
O médico me olha, por trás de uma prancheta, olhos querendo saltar por cima da armação.
- Sim? Então está feliz com sua vida, afinal. Por que não conta como foi sua semana, Generoso?
Olho firmemente para o médico. Com certeza ele deve ter lido as intenções em meu olhar, pela forma com que colocou a prancheta de lado e se inclinou em minha direção. - Ou não, não é mesmo, meu caro Generoso? - diz ele, segurando as mãos como se estivesse frio aquele forno de consultório.
- Não… Não - tento responder, desviando a atenção para o teto. - O que está claro para mim, doutor (e coloquei ênfase nesse doutor) é que minha cura é desistir. Não aguento mais ver todas minhas ideias de repente existirem, do nada, realizadas por alguém em alguma parte deste mundo maldito!
Sem resposta do médico, que me olha agora com cara de quem quer desistir de mim é ele, continuei.
- Joguinho de dar peteleco numa bolinha, com os jogadores feitos de prego numa táboa? Inventei com 7 anos à mais de 50 anos. Quando vou contar isso aos meus sobrinhos, descubro que eles tem um igualzinho!
O doutor Raimund parece ter perdido a paciência, pois levantando, retira os ólculos rapidamente para um lado, dá dois passos de costas para mim e começa a me dar sermão, como poucas vezes.
- Olha, Gene. Por mais isento que eu consiga ser, mais hora menos hora todos cansam dessa sua ladainha. Vou falar para sua irmã que não dá mais, não. Devia saber que não daria certo eu atender o cunhado - e virando-se para mim - cara, isso já faz mais de 30 anos! Seu sobrinho, meu filho, tem quase quarenta! E você continua voltando nisso? São idéias comuns, Gene! Comuns!!!
Sento-me, tentando parecer calmo, à beira do divã. Olho para baixo, acho que isso ajuda a esconder minha frustração-ódio-raiva pelo Raí.
- Olha, Raí. Você não está sendo justo. Só citei aquilo pois foi uma das primeiras vezes que me dei conta. E o sistema de ajuda com marcadores para alterar texto, antes de existir qualquer tipo de texto estruturado? E a ideia para uma série de livros misturando magia, idade medieval e cultura oriental, sobre as eras do tempo? E minhas teorias sobre a fábrica do tempo, agora sendo publicadas em livros amarelinhos para leigos por cientistas de sei lá onde! - nisso, já estou de pé e com um dedo no nariz do Raí.
- Calma, calma aí, Gene. Você precisa…
- Preciso que me escutem. Preciso acabar com tudo isso - exasperado, coçando a cabeça com uma mão, infio a outra em um dos bolsos e dou meia volta. - Desculpe, Raí. Mas não aguento mais. Sabe qual foi a última, agora? - Infio a primeira mão no respectivo bolso e tento dar um sorriso amarelo, olhando pelo canto do olho. - Sabe aquele jogo que pegamos fantasmas com a câmera?
- Sei, Gene, sei. A Sue, que você namorava, ficou tão assustada quando seu gato pulou nela numa das cenas que foi embora e te largou ali mesmo.
- Pois é. Comentei com você no outro dia sobre fazer uma aplicação de realidade aumentada usando a câmera do aparelho celular. Parece que colocaram câmera em um videogame portátil de última geração que vão começar a vender mês que vem. Adivinhe que jogo vem com ele? - volto a minha irritação, gesticulando e abrindo os braços. Tão forte que a caneteira de Raimund voa na parede oposta.- Pois é!!! O próprio jogo, agora aproveitando sua casa real como cenário para a versão de realidade aumentada!
- Gene, Gene. São idéias que são…
- Simples? Babacas? É isso não é, que você e a Linda pensam? Confesse! Vocês acham, não! Vocês tem certeza que sou um completo mané! Minhas idéias são tão babacas que qualquer um as tem a toda hora.
- Não, não é isso. Olha, Generoso, o tempo acabou. Melhor você tomar um desses - ele me estende a mão com um comprimido tirado de uma caixa com tarja preta - e ir para casa descansar. Para a seção de amanhã irei eu mesmo à sua casa e conversamos.
Mais tarde, já em casa, tenho a idéia (podre, eu sei) de pegar a caixa que tenho daquele remédio de tarja preta e tomar todos de vez. Creio que o mesmo respeito próprio que me leva a crer que realmente há algo de esquisito nos roubos de minhas ideias, e não alguma doença mental, me faz ligar a televisão para afastar a ideia de suicídio. Suicidar-se? Para quê quando você tem alguém sempre roubando seus pensamentos como se você fosse um personagem de um conto qualquer de quinta categoria, desses publicados em blogs? Sim, pois o que acontesse a seguir é o suficiente para me poupar do ato.
Ligo a televisão e, tendo somente estática, troco o canal, indo parar no noticiário, o âncora com um expressão pesada contando:
“E na coluna cultural, uma notícia triste para os fãs de quadrinhos de terror. Armando Talles, um senhor de 58 anos, escritor de famosos contos de fantasmas e monstros transformados em quadrinhos na década de setenta, foi encontrado morto hoje pela manhã em seu apartamento na clínica de descanso, em um subúrbio rico da capital Marroquina, onde morava desde que se aposentou a dez anos. O escritor, que sofria de ilusões e delírios onde ele seria o cérebro do mundo e as pessoas apenas membros de uma gigante colmeia, tomou todos os comprimidos de um forte calmante que lhe era prescrito. O funeral será nesta quarta-feira, em sua cidade natal…”
Não ouço mais nada, a dor no peito é lancinante. Engraçado, não sinto mais as mãos nem os pés… Até a dor no peito eventualmente passa. Infartar não é tão doloroso, afinal.
Agora me sento à mesa, para discutir com o orientador os próximos passos.
- Desta vez a viagem foi estranha, irmão orientador. Todas as outras viagens que fiz trouxeram memórias residuais para o Generoso. O pior é que essas outras viagens fiz em tempos muito parecidos, dái a sensação de que eu mesmo estava na cabeça de desconhecidos. Analisando agora é maravilhoso, mas durante a viagem era horrível.
- Irmão, você foi avisado dessas experiências de viagens a Terra em corpos diferentes em tempos concomitantes.
- Sei, eu sei. Porém valeu a pena, aprendi muito. E não sou o único a fazer isso, você bem sabe. A humanidade não se dá conta de o quão somos realmente próximos, ou quanto significa o tão levianamente usado jargão ‘somos todos um’.
- Sim. E realmente, você aprendeu muito. Está na hora de viajar a outros planos do nosso pequeno Kosmos Universalis.- o colega orientador aponta em um gesto amplo para a janela da nave. Lá, nas profundezas da visão, pareço ver a mim e meu colega orientador sentados àquela mesma janela conversando. Já em viagem, apenos escuto ele dizer a mim mesmo naquela mesa:
- Você vai aprender o quanto se estende o significado da frase que você citou.
Novamente em uma primeira viagem, a primeira de muitas jornadas da nova etapa para a descoberta de nós (eu?) mesmos.
April 26th, 2011
T4R-74N, dos orgânicos
Olhava com estranheza para aquela estrutura orgânica.
Processava as entradas de seus sensores, que lhe diziam o que estava lá, o que não lhe dizia muito. Estruturas orgânicas? O que seriam? Moviam-se como ele, mas com certeza eram diferentes. Sentiu-se pegar no ar. Um aperto. Movimentos rápidos. Alto… A estrutura orgânica o levava por cima de outras estruturas, que tinham um processamento molecular similar aos sensores, mas diferentes daquela que o carregava, eram completamente imóveis e iam até o solo e nele entravam. Seriam condutores de alimentação?
A corrida no alto continuava. Sentia em seus sensores de superfície aqueles fios capilares da estrutura que o carregava. Talvez fossem interfaces, porém não saberia como usá-las. Como seria? Perscrutava sua memória, mas algo havia a apagado completamente. Não sabia de onde viera, a que classe e família pertencia, nem seu propósito. Apenas havia o registro perene no circuito de sua BIOS com os parâmetros básicos para iniciar seus sistemas e seu aprendizado. A rede neural também era somente um princípio, uma semente, desde que se percebeu frente a frente com as entidades orgânicas. Uma rápida descida e repentina parada no chão, a entidade o acomodou e preferiu aguardar. As entidades agora pareciam tentar se conectar de alguma forma: emitiam sons fortes e iam de encontro uns aos outros, com forte ênfase em seus apêndices superiores. Ao fim daquela movimentação a entidade que o carregara, uma espécie de unidade mestra entre aqueles organismos, tentou com ele uma comunicação visual. Entendendo parcialmente o que a mestra indicava, a seguiu até um abrigo em um apêndice a meia altura de uma das estruturas imóveis. Com o aprendizado de sua rede neural em andamento, imitiu e registrou as movimentações necessárias, utilizando-se de seus próprios apêndices retráteis, agora parcialmente estendidos.
Muitos ciclos mais tarde e seu alarme interno começou a disparar. Entrou no modo de economia de energia, apagando suas luzes de indicação, seu mostrador principal e reduziu seus movimentos. O parâmetro básico para continuidade indicava-lhe a necessidade da recarga de energia. Porém como poderia fazer isso?
A mestra parecia perceber o que lhe ocorria. Acompanhou a mestra com seus sensores óticos e a viu descer ao solo e retirar várias protuberâncias em formato de ogivas de uma entidade imóvel menor que as outras. Quando ela voltou retirou de uma das ogivas um revestimento e ficou com o mesmo a sua frente. Seriam baterias? Abriu seu compartimento de análise e, com um movimento lento de um de seus apêndices retráteis, colocou a bateria ali. Moléculas de carboidratos. Exigiria um processamento extra para converter aquilo em energia, porém a rápida observação da situação indicava nenhuma alternativa. Quase se desligou completamente, porém o saldo energético foi positivo. Portanto decidiu processar mais algumas daquelas ogivas. Com isso conseguiu restaurar completamente suas energias.
Ciclos e ciclos se passaram. Quinhentos e vinte e dois e um quarto, para ser exato. Sua rede neural aumentava exponencialmente, agora percorria com velocidade uma área considerável. Passou a existir com aquelas entidades e descobriu que havia várias, de varadas funções e modelos. Apesar de nunca ter conseguido uma interface direta, conseguiu interagir satisfatoriamente com todas as entidades que conheceu, ou gesticulando seus próprios apêndices da forma adequada, ou emitindo sons imitando-as, ou tocando as entidades. Conhecia vários tipos de protuberâncias com carboidratos e tinha um ciclo energético adaptado mais eficiente. Percebeu, no entanto, que as estruturas imóveis aumentavam aos poucos ou definhavam e desapareciam. O mesmo se passava com as entidades com mobilidade, porém por vezes elas cessavam completamente suas funções, mesmo sem aumentar. Talvez precisassem de reparos, mas não havia oficina naquele lugar. Foi assim que adaptou sua programação, aderindo ao propósito de zelar por aquelas entidades.
***
- Unidade cabo P0R-T4. Relatório.
- Outra expedição de unidades colheitadeiras perdida, capitão. Outrora seriamos capazes de manipular os seres orgânicos dessa lua. Porém eles agem com coerência e lógica, unidos.
- Teremos então de usar as unidades caçadoras especialistas N1N-J4 e reaver a unidade desgarrada.
Ia contra todas as observações naturais e lógicas da existência dos computeranos. O capitão porém não poderia negar a lógica da óbvia conclusão. O responsável por tal mudança em nível global daquele pequeno satélite desde a última colheita a mais de quinhentos ciclos atrás não poderia ser outro do que a unidade de processamento de lixo orgânico T4R-74N, descartada erroneamente daquela feita.
April 15th, 2011
A Viagem
Da palavra vem a idéia.
Da idéia vem a imagem.
Da imagem faz-se a percepção.
Da percepção cria-se o mundo.
Do mundo percebe-se a imagem.
Da imagem idealiza-se a palavra.
Da Palavra, com amor.